A cidade das carrancas espera um médico
No Vale São-Franciscano, Bahia (divisa com Minas), só ganhou ponte sobre o São Francisco em 2010 — e ainda espera o médico que atravesse até ela.
A cidade só ganhou uma ponte sobre o São Francisco em 2010. Até então, atravessar para Malhada, na outra margem, era coisa de balsa e de paciência — e o casario da margem esquerda seguia voltado para a água, como sempre esteve desde que a vila nasceu do rio, em 1832. São 775 quilômetros até Salvador. Dentro do próprio estado, poucas sedes municipais estão mais longe da capital do que esta.
Aqui o Velho Chico recebe um afluente que desce dos gerais e faz a divisa com Minas: da outra beirada desse rio, já é outro estado. São cerca de 30 mil habitantes num município de mais de 2.500 km², vivendo de gado bovino e suíno, de pesca e — este é o número que explica quase tudo — de administração pública, que responde por 40,9% do PIB. A cidade vive do próprio Estado; quando o Estado falta, não há indústria que cubra o buraco.
Nas proas dos barcos do São Francisco, a carranca foi esculpida para espantar assombração. Aqui ela é levada a sério: a Praça do Anfiteatro, à beira do rio, já recebeu o talhamento de uma carranca na campanha Vire Carranca, do Comitê da Bacia do São Francisco. Mas carranca não espanta Aedes — o município já figurou em alerta de alto risco para dengue no sistema Info Dengue — e não encurta estrada: a região de saúde é a de Guanambi, e é para lá que segue, por horas de asfalto quente, o que a rede local não resolve.
É nesse intervalo entre o rio e a referência distante que o médico trabalha. PSF de manhã, com a comunidade que aprende seu nome antes da segunda consulta; pronto-socorro à noite, quando a retaguarda mais próxima é a sua própria formação. O município anunciou R$ 3,1 milhões para construir uma unidade de saúde nova e reformar outras duas — a estrutura melhora, mas a solidão clínica do plantão continua sendo o preço de morar onde a Bahia acaba e Minas começa. Quem precisa de colega na sala ao lado não fica; quem gosta de decidir, fica e vira instituição.
A porta de entrada é um credenciamento de fluxo contínuo, com vigência indeterminada: você se habilita como pessoa física ou jurídica junto à prefeitura, no prazo que for o seu, para atuar como médico de PSF e plantonista do PS. Paga-se R$ 14 mil/mês ou R$ 2,3 mil/plantão 24h — numa cidade onde a folha da prefeitura é a maior economia que existe, isso é estar no topo dela. A carranca segue na praça, de cara feia para o rio, esperando quem não se assusta fácil. Atravesse a ponte e vá ver.
- A vaga
- Médico PSF + Plantonista PS
- Quanto pagam
- R$ 14 mil/mês ou R$ 2,3 mil/plantão 24h
- Vínculo
- Credenciamento · PF ou PJ · fluxo contínuo
- Região
- Vale São-Franciscano, Bahia (divisa com Minas)
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