Onde a santa chegou antes do médico
Na Região de Porto Nacional, a santa subiu o Tocantins a remo desde Belém. O médico que fique 24 horas seguidas ainda não chegou.
A cidade ganhou a padroeira antes de ganhar médico. No século XIX, o barqueiro Sabino Piloto trouxe de Belém do Pará, remando bote contra a correnteza do Tocantins, uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré — e um coronel ergueu capela para ela na fazenda de gado que um maranhense havia fincado à margem esquerda do rio. A santa venceu semanas de água no braço. Cento e sessenta anos depois, o Tribunal de Contas do Tocantins visitou o hospital municipal de pequeno porte e registrou, entre outros achados, a ausência de cobertura médica ininterrupta. A santa chegou e ficou; o médico ainda não.
O relatório da fiscalização do TCE-TO, feita em maio, é a radiografia que o hospital não tem como fazer — porque não há serviço próprio de raio-X em operação, nem laboratório instalado. Registrou também cirurgias oftalmológicas realizadas sem gerador de energia no prédio, e deu à prefeitura quinze dias úteis para apresentar plano de ação. Não é segredo, não é fofoca de corredor: é documento público. Quem assinar credenciamento aqui não vai gerenciar abundância — vai ser a cobertura que faltava no auto de inspeção.
O contraste da cidade está na água. O rio que a santa subiu virou lago com a hidrelétrica Luiz Eduardo Magalhães, e nesse lago hoje boiam tanques-rede de tilápia — um projeto no Assentamento Boa Sorte começou com mais de quarenta mil alevinos em nove gaiolas de aço. A agropecuária responde por cerca de 73% do valor adicionado do município. O peixe engorda em gaiola monitorada; o exame de sangue do pescador viaja de carro para outra cidade.
A rotina do médico dos pouco mais de cinco mil habitantes é a da Estratégia de Saúde da Família de manhã — duas unidades, gente com nome e sobrenome que você reencontra na festa da padroeira, no último domingo de julho — e o plantão no hospitalzinho onde a decisão de estabilizar e transferir para Porto Nacional ou Palmas é sua, sem colega na sala ao lado, sem imagem, sem bioquímica. É medicina de exame físico, telefone e critério. Quem precisa de retaguarda para pensar não atravessa o primeiro mês. Quem pensa bem com pouco descobre por que essas vagas pagam acima da capital.
A porta é um credenciamento de fluxo contínuo, pessoa física ou jurídica, com inscrições abertas de 27/02/2026 a 26/02/2027 junto à prefeitura — sem concurso, sem fila, porque fila de médico é coisa que esta cidade nunca viu. A remuneração: R$ 16,5 mil/mês · R$ 2,1 mil/plantão 24h. A santa fez a viagem mais difícil, a remo e contra a corrente; de Palmas para cá é asfalto. Falta só quem complete o trajeto.
- A vaga
- Médico PSF + Plantonista PS
- Quanto pagam
- R$ 16,5 mil/mês · R$ 2,1 mil/plantão 24h
- Vínculo
- Credenciamento · PF ou PJ · fluxo contínuo
- Região
- Região de Porto Nacional, Tocantins
Agora você sabe a cidade. O edital oficial, os prazos de inscrição e o contato ficam com quem assina.
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