A cidade que enterrou um povoado dentro d'água
No Agreste Paraibano, no semiárido da Paraíba, um município tem um cemitério no fundo do açude — e um hospital que já fechou por falta de médico.
O município, no agreste da Paraíba, tem um cemitério debaixo d'água. Quando a barragem de Acauã fechou as comportas, entre 1999 e 2002, o rio Paraíba subiu sobre seis povoados inteiros — Melancia, Cajá, Ilha Grande, Junco, Cafundó e Pedro Velho, este último com casas, escola, igreja e os mortos enterrados em chão firme. Cerca de 4.500 pessoas saíram carregando o que coube nas mãos. O Ministério Público Federal ainda atua para garantir reparação às famílias atingidas; o Movimento dos Atingidos por Barragens nasceu forte ali por um motivo.
Nas grandes secas, o açude baixa e Pedro Velho reaparece: paredes de taipa, o traçado das ruas, o alicerce da igreja emergindo do barro rachado. É a contradição que define o lugar — o açude guarda água para nove cidades da região, e o município, em trinta anos, perdeu um terço da própria gente: de 28,8 mil habitantes para pouco mais de 19 mil. A água ficou; as pessoas foram embora.
A saúde local carrega a mesma cicatriz. Em janeiro de 2020, o CRM-PB interditou o Hospital Municipal: faltavam médicos, equipamentos, exames de laboratório. Só reabriu depois de reforma, com escala completa e radiografia funcionando — e a fiscalização do Conselho voltou para conferir. Esse é o tamanho do buraco que um médico preenche aqui: quando falta um, fecha-se um hospital.
A rotina de quem fica é a do PSF de sertão: o hipertenso que só descompensa porque a caatinga fica longe da farmácia, o diabético que aparece quando já dói, o velho da agrovila de reassentados que ainda descreve a casa antiga pelo que havia dentro. Num município onde a prefeitura é de longe a maior empregadora, o médico da unidade não é um crachá — é figura pública, conhecido pelo nome na feira, cobrado na rua. Campina Grande está perto o bastante para a referência, longe o bastante para que ninguém resolva por você.
A porta tem forma de edital: credenciamento de Médico PSF, pessoa física ou jurídica, fluxo contínuo — a janela formal do chamamento (Concurso Público n° 01/2026) correu de 24/04/2026 a 24/05/2026, pelos canais da Prefeitura. Paga-se R$ 14 mil/mês. Não é dinheiro de compensar sofrimento: é dinheiro de sustentar quem aguenta ser o único plantão entre dezenove mil pessoas e um açude cheio de memória. Se a seca um dia devolver Pedro Velho à superfície, esteja lá para ver. Vá conhecer o município.
- A vaga
- Médico PSF
- Quanto pagam
- R$ 14 mil/mês
- Vínculo
- Credenciamento · PF ou PJ · fluxo contínuo
- Região
- Agreste Paraibano, Paraíba (semiárido)
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