A cidade que fabrica o teto dos outros
No Sul Catarinense, um município queima cem milhões de telhas e tijolos por ano para cobrir a casa dos outros — e não segura um médico sob as suas.
A localidade, no sul de Santa Catarina, fabrica o teto dos outros: de suas olarias saem cerca de cem milhões de telhas e tijolos por ano, cozidos em fornos que não apagam e vendidos para meio Brasil e para os vizinhos do Mercosul. A região inteira cheira a barro queimado. E, no meio dessa indústria que cobre tanta casa alheia, falta o médico que fique sob as telhas dela.
O nome engana. Antes de ser o que é hoje, o lugar se chamou Rua de Fogo: os tropeiros que desciam do Planalto Serrano rumo a Laguna paravam ali no frio e acendiam fogueiras que ardiam dias, brasas mantidas vivas de um viajante para o outro. O nome virou depois, de uma sanga — um riacho — na terra do primeiro morador. A ironia é dura: o rio que herda esse nome recebeu rejeito pirítico da antiga Indústria Carboquímica Catarinense, e a recuperação da bacia carbonífera se arrasta até hoje numa ação civil pública acompanhada pelo Ministério Público Federal. A região batizada por um curso d'água limpo virou ré e vítima da água ácida.
Aqui não há hospital de porta. Há as Unidades Básicas — a da sede, a de Morro Grande — e a estrada: Criciúma a meia hora, Tubarão logo adiante, cada encaminhamento dependendo de vaga e de fila. A Secretaria de Saúde chegou a vir a público pedir que os pacientes não faltassem às consultas agendadas, porque cada ausência trava a espera por especialidade de todo o resto do município. É esse o tamanho do buraco: não falta demanda, falta quem a atenda antes que ela vire ambulância na BR-101.
A rotina de quem topar é a medicina de chão de fábrica e de roça: atenção básica com pequenos procedimentos, o oleiro que trabalha ao lado do forno, a poeira das cerâmicas — cujas emissões já viraram objeto de estudo na região —, o agricultor da mandioca que só aparece quando não aguenta mais. Sem retaguarda na sala ao lado, a primeira decisão é sempre sua. Em compensação, mora-se perto das praias de Laguna e a duas horas de Florianópolis, e em pouco tempo o balcão da padaria sabe seu nome.
A porta de entrada é um edital de credenciamento da Prefeitura local, com inscrições abertas em fluxo contínuo de 18/05/2026 a 18/05/2027 — pode entrar como pessoa física ou jurídica, sem concurso, sem espera. Paga-se R$ 150/consulta. Não é fortuna: é o preço de manter a brasa acesa numa região que aquece os fornos dos outros há um século. Os tropeiros deixavam o fogo vivo para o próximo viajante. A vaga é exatamente isso. Vá ver de perto.
- A vaga
- Outros (Médico — Atenção Básica com pequenos procedimentos)
- Quanto pagam
- R$ 150/consulta
- Vínculo
- Credenciamento · PF ou PJ · fluxo contínuo
- Região
- Sul Catarinense, Santa Catarina
Agora você sabe a cidade. O edital oficial, os prazos de inscrição e o contato ficam com quem assina.
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