O planalto onde a neve cai e o médico falta
No Planalto Norte Catarinense, uma cidade termina no meio da rua: do outro lado da ponte, outro estado. O que não muda de margem é a falta de médico de família.
A cidade termina no meio da rua. Do outro lado da ponte de ferro belga de 1896 sobre o rio Negro, a mesma malha urbana continua com outro nome e outro estado: Rio Negro, Paraná. É um aglomerado de cerca de 80 mil pessoas que vive como uma cidade só — comércio, lazer, doença — mas administrada por dois governos. Essa fronteira não é detalhe de mapa: ela nasceu da Guerra do Contestado, que deixou por volta de 20 mil mortos antes de os dois estados assinarem o acordo de limites que criou o município, em 1917.
O planalto norte catarinense fica a quase 800 metros de altitude, e o inverno ali é sério: geada de rotina, neve de vez em quando. O chão também guarda coisa antiga. Aqui funciona o Cenpaleo, da Universidade do Contestado, com mais de 30 mil fósseis — uma das maiores coleções paleontológicas do Brasil, registros de 300 milhões de anos atrás. A cidade que guarda 300 milhões de anos em vitrine não consegue manter médico de família em sala de consulta. Essa é a contradição que sustenta este edital.
E não é por falta de estrutura. O Hospital São Vicente de Paulo é referência de média e alta complexidade para 13 municípios do Planalto Norte e mais 5 do nordeste catarinense — quase um milhão de pessoas na área de abrangência —, acaba de ganhar uma torre nova de 11 andares e R$ 99 milhões, com 140 leitos e 12 salas cirúrgicas, e foi habilitado pelo Ministério da Saúde como centro de referência em alta complexidade cardiovascular. A retaguarda existe. O que falta é o começo da linha: o médico do PSF que segura a porta de entrada para que o hospital não vire pronto-socorro de tudo.
O trabalho é esse: atenção primária de território, num município de colonização alemã, polonesa, ucraniana e bucovina, onde o paciente da manhã é avô do paciente da tarde e a erva-mate ainda é chamada de ouro verde. O custo é concreto: você atravessa a geada de junho para abrir a unidade, atende inverno inteiro de brônquios e pressão alta de gente do campo, e está a quase quatro horas de Florianópolis — fora do eixo litorâneo onde os colegas de residência foram se amontoar. É exatamente por isso que a vaga não fecha, e por isso pagam o que pagam.
A porta tem forma de chamamento: Credenciamento contínuo (Chamamento Público nº 008/2025), com vigência até 15/07/2030 — inscrição por protocolo eletrônico na plataforma 1Doc (portal do município), somente pessoa jurídica (PJ). A remuneração vai de R$ 4,5 mil a R$ 18 mil/mês, e a faixa larga é o recado honesto de quem precisa segurar quem topa o frio. Se o seu lugar é onde a cidade acaba numa ponte e recomeça em outro estado, vá ver aqui com os próprios olhos antes que outra geada passe sem médico.
- A vaga
- Médico PSF
- Quanto pagam
- R$ 4,5 mil a R$ 18 mil/mês
- Vínculo
- Credenciamento · PF ou PJ · fluxo contínuo
- Região
- Planalto Norte Catarinense, Santa Catarina
Agora você sabe a cidade. O edital oficial, os prazos de inscrição e o contato ficam com quem assina.
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