O reino de areia que ficou sem médico
No Oeste Paulista, um município já foi o Rei do Algodão. Hoje, a 35 km do polo médico, não consegue fixar um médico de família.
A localidade já foi o Rei do Algodão. Não é força de expressão: no fim dos anos 40, este município do Oeste Paulista colheu 2,2 milhões de arrobas numa única safra e chegou a 37 mil habitantes — 29 mil deles na zona rural, curvados entre os capulhos. Hoje são cerca de 26 mil, e o campo que sustentou o reino esvaziou. O lugar nasceu à margem da Estrada de Ferro Sorocabana, ganhou nome de coronel e ficou onde estava: sobre a areia clara do planalto, a 494 quilômetros da capital.
O problema nunca foi a distância de São Paulo. É a proximidade de Presidente Prudente. O polo regional fica a 35 quilômetros: faculdade de medicina, residência, hospital de retaguarda, vida urbana. O recém-formado mora lá, planta a carreira lá, e passa por aqui pela janela do carro, na Raposo Tavares da vida, sem descer. Trinta e cinco quilômetros bastam para drenar médicos — é o êxodo do algodão repetido em jaleco.
E no entanto o município tem o que muito lugar do interior perdeu: uma Santa Casa própria, com mais de 70 anos, pronto-socorro 24 horas, centro cirúrgico — e que recentemente implantou um protocolo de atendimento ao infarto que reduziu em 50% as mortes por IAM. Ou seja: há retaguarda a dez minutos do posto, coisa que quem trabalha na Amazônia ou no Jequitinhonha não sonha. O que falta é a outra ponta — o médico de porta, o PSF, quem conheça o nome do paciente e a estrada de terra até a casa dele antes que o infarto aconteça.
A vida fora do plantão também existe. A menos de 15 quilômetros do centro, a Represa Laranja Doce estende cinco quilômetros de margem, calçadão, quiosques com churrasqueira à beira d'água; junto à barragem ainda funciona a usininha hidrelétrica inaugurada em 1930, uma das mais antigas da Alta Sorocabana. O contraste da região cabe numa frase: sobrou paisagem de domingo, faltou quem cuide da segunda-feira.
A porta tem forma de edital: credenciamento para Médico PSF, contratação como pessoa física ou jurídica, com inscrições de 29/04/2026 a 13/05/2026 e prova objetiva em 07/06/2026 — quem perdeu a janela deve monitorar a prefeitura, porque credenciamento em cidade que não fixa médico costuma reabrir. A remuneração é R$ 16,2 mil/mês. Não é dinheiro de metrópole; é dinheiro que, onde a casa é barata e a represa é de graça, compra uma vida inteira. O município não pede heroísmo — pede o que é mais raro: alguém que, a 35 quilômetros do polo, escolha descer do carro. Desça.
- A vaga
- Médico PSF
- Quanto pagam
- R$ 16,2 mil/mês
- Vínculo
- Credenciamento · PF ou PJ · fluxo contínuo
- Região
- Oeste Paulista, São Paulo
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