218 anos para virar cidade, um médico para chamar de seu
No Alto Jequitinhonha mineiro, um município levou 218 anos para virar cidade — e ainda espera o médico que fique.
O município levou 218 anos para virar cidade. O arraial nasceu em 1744, quando Antônio Magalhães de Barros fincou uma capela a Nossa Senhora das Mercês na margem direita do rio Araçuaí — e só em 1962 uma lei estadual o separou de Diamantina e o promoveu a município. Dois séculos como distrito esquecido no alto Jequitinhonha, e até hoje nenhuma rodovia federal passa por ali: chega-se por estradas secundárias que serpenteiam o Espinhaço a nordeste da velha capital do diamante, a 743 metros de altitude.
É terra do ciclo do diamante que acabou e não deixou herdeiro. Restaram cerca de 4,2 mil habitantes num dos vales mais pobres de Minas — IDHM de 0,620 —, vivendo de roça, gado miúdo e folha pública. E restou uma ironia que poucos municípios podem contar: dentro do território ficam sítios do complexo arqueológico Campo das Flores, parentes da Lapa do Caboclo, abrigo do Espinhaço onde a ocupação humana foi datada em mais de dez mil anos. Gente mora naquelas serras há dez milênios; o município, há sessenta anos. O médico que chegar vai atender a ocupação mais antiga e o município mais novo ao mesmo tempo.
A saúde tem o tamanho do lugar. O posto da Avenida Nossa Senhora das Mercês abre de segunda a sexta, das sete às cinco. Não há hospital: o que exige leito ou especialista viaja pelas estradas de serra até a rede do CISAJE, o consórcio de saúde do Alto Jequitinhonha sediado em Diamantina. Entre o fim de tarde de sexta e a manhã de segunda, entre a fratura do trator e a vaga de referência, existe uma pessoa — e a prefeitura está credenciando essa pessoa agora, no mesmo ano em que abriu seleção para recompor até os agentes de saúde. O sistema inteiro está sendo remontado, peça por peça.
A rotina, para quem serve a ela: PSF de manhã, o hipertenso que veio a cavalo, o pré-natal de quem nunca desceu a Diamantina; plantão no fim de semana, quando a serra devolve o que a semana plantou. Sem colega na sala ao lado, sem tomógrafo, com um telefone e o próprio exame físico. É por isso que quem vem embora na primeira chuva forte vem — e é por isso que pagam o que pagam.
A porta tem forma de edital: credenciamento contínuo, aberto até 31/12/2026, pessoa física para a ESF e PF ou PJ para o plantão, tudo online na plataforma licitardigital.com.br. A remuneração: R$ 15,5 mil/mês ou R$ 1,6 mil/plantão 24h, num lugar onde quase não há em que gastar. Dez mil anos de gente esperaram por essas serras; o edital espera bem menos. Suba a serra e veja.
- A vaga
- Médico PSF + Plantonista PS
- Quanto pagam
- R$ 15,5 mil/mês ou R$ 1,6 mil/plantão 24h
- Vínculo
- Credenciamento · autônomo (PF ou PJ) · fluxo contínuo
- Região
- Alto Jequitinhonha, Minas Gerais
Agora você sabe a cidade. O edital oficial, os prazos de inscrição e o contato ficam com quem assina.
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