Onde o calendário é a cheia, não os meses
No Alto Solimões amazônico, a 1.109 km de rio de Manaus, sem um metro de estrada, um município tem a Unidade Mista esperando plantonista.
A cidade fica a 1.109 quilômetros de rio de Manaus — não existe um metro de estrada ligando o município a lugar algum. Em linha reta seriam 867 km; mas linha reta, no Alto Solimões, é conceito de mapa. Na prática, você embarca e sobe o Solimões por dias, a floresta correndo devagar nas duas margens, até a foz do rio que lhe dá nome, onde a cidade se assenta na várzea. Ali o ano não tem quatro estações: tem a cheia e a vazante, e é a água — não o mês — que decide quando cada comunidade consegue chegar ao médico.
E o município cresce. O IBGE contou 19.247 habitantes em 2022 — trinta anos antes eram 10 mil, um salto de 91,9%. Mais de um em cada três moradores é criança. É uma população jovem, cheia, subindo — e a retaguarda de saúde é uma só: a Unidade Mista local, gerida pelo Estado, o último ponto de atendimento antes de dias de barco. Insumo que acabou é insumo que espera a próxima balsa. Exame que não existe ali é remoção fluvial ou aérea, quando há.
Em abril de 2026, o Ministério Público Federal recomendou ao governo do Amazonas a correção de falhas estruturais na saúde reprodutiva e materna do estado, depois da morte de uma mulher indígena Kokama aqui. O MPF chamou mortes maternas de "eventos sentinela" e apontou os vazios assistenciais da Calha do Solimões: tempo de resposta, falta de especialista, regulação hospitalar. Esse é o tamanho do trabalho que espera quem desembarca.
O cotidiano de quem fica não é só o dramático. É o plantão na Unidade Mista, a consulta em português entrecortado de kokama e ticuna, a farinha e o peixe na feira da beira, o rio mudando de cara toda semana. É medicina sem colega na sala ao lado e sem tomógrafo no corredor — decidir com as mãos, a clínica e o que chegou na última balsa. Muita gente experimenta um mês e volta no primeiro barco. Por isso pagam o que pagam.
A porta tem forma de chamamento público: credenciamento de fluxo contínuo, aberto de 12/06/2026 a 11/06/2027, para plantonista de pronto-socorro, pessoa física ou jurídica — a documentação vai em envelope lacrado, entregue no protocolo da Prefeitura (Termo de Credenciamento nº 004/2026). A remuneração: R$ 21,1 mil/mês ou R$ 2,8 mil/plantão 24h, para quem prefere provar o isolamento um plantão de cada vez. A cheia não espera calendário, e a Unidade Mista não fecha. Suba o rio e vá ver com os próprios olhos.
- A vaga
- Plantonista PS
- Quanto pagam
- R$ 21,1 mil/mês ou R$ 2,8 mil/plantão 24h
- Vínculo
- Credenciamento · PF ou PJ · fluxo contínuo
- Região
- Alto Solimões, Amazonas
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